Quando a General Motors lançou no mercado brasileiro a versão sedã do caçula Celta, no ano de 2006, corria o risco de criar uma confusão pela dificuldade de posicionar produtos com faixas de preços muito próximas, como no caso do Corsa Classic e o Prisma: portes e propostas muito semelhantes. Então, a pergunta era como construir um novo nicho dentro de casa com os irmãos brigando entre si?
Os publicitários definiram que o tipo de carro é capaz de dizer coisas sobre o seu dono. Partindo deste princípio, o primeiro carro de um jovem é, quase sempre, um pequeno hatch, pois se leva em conta a condição financeira, ficando convencionado que hatches pequenos e baratos são carros de quem tem pouco dinheiro: os jovens. E, na mesma escala de convenções, o próximo passo na demonstração de sucesso é um sedã. Logo, ter um sedã significa que você alçou um degrau, mesmo que se trate de um simples hatch com a adição de um porta-malas saliente.
O Prisma foi um caso de automóvel onde o departamento de marketing teve uma tarefa mais dura do que o departamento de engenharia.
O filme de lançamento criava um mar de exageros. Claro, o carro tinha seus predicados, mas não era tudo isso. No entanto, o filme foi um primor no quesito “adequação ao público-alvo”. Mirando o dono de um celta (um hatch pequeno, portanto com donos jovens, em começo de carreira e que provavelmente têm nele seu primeiro carro) o lindo filme mostrou um jovem que, levando sua vida adiante, é surpreendido pelos personagens de sua infância.
O ponto de referência é quem teve a infância nos anos 80. Quem não entendeu nada ao ver o monstro Stay Puff (do filme Os Caça-Fantasmas), o Brinquedo Assassino, Scooby-Doo, Fofão, Saci-Pererê, soldadinhos, pai, mãe, padre, noiva, coelhinhas da Playboy e até um Zorro na janela é porque não era mesmo o público-alvo do comercial – que tinha de 25 a 35 anos na ocasião.
Esses ícones representavam a construção do passado do personagem, como elementos que, um a um, ficam para trás e deixam um recado: Bebê, você cresceu... Orgulhoso, o rapaz olha seu Prisma e pensa: “a vida me trouxe até aqui”. Um jeito muito simbólico, inteligente e eficaz de associar o produto ao público-alvo. Semiótica pura e simples. O camarada troca um hatch por um sedã e isso é explorado como um ritual de passagem. Daí vem a conversa de “grande carro” e tal – um trocadilho desnecessário, porque todo mundo sabe que o Prisma não era, e não é hoje, um “grande carro”, tampouco um “carro grande”. Mas o filme foi tão primoroso e bem executado que entra para a história dos comerciais de automóveis. Relembre: